terça-feira, 24 de novembro de 2009

Dois poços, dois opostos

Ela, um poço de palavras, sons, ideias, estardalhaço, comunicação. Humana - essencialmente humana. Ele, um outro poço, mas de silêncio, reflexão, inexpressividade, ensimesmidade. Exato - irremediavelmente exato.

Ela gosta de diálogo, mas quase sempre o "di" da palavra some e então vira "monólogo". Não é divertido. Porque quanto mais ela fala e menos ele responde, mais ela se irrita. Vira um poço de raiva e indignação. Pior pra ele - quanto mais ele se fecha dentro do seu casulo de silêncio, mais verborreia ela lhe despeja na cabeça.

- Você nunca diz nada! Fala alguma coisa! Eu nunca sei o que você tá pensando!
- Mas o que você quer que eu fale?

Não isso, com certeza. Impossível - não passa nada na sua cabeça?

- Me fala, é um absurdo tudo isso que eu tô falando?

Ele não responde nada, só faz aquela cara de não sei se saco-cheio ou mágoa ou tristeza ou quem sabe até arrependimento, com o olhar vago perdido em algum canto. Então as palavras ricocheteam na parede e voltam a rebentar contra a cara dela, em forma de um acesso de raiva tipicamente genético. E mais verborreia.

Isso porque ela não entende como alguém pode ser tão introvertido. Tão apático, tão inexpressivo. Por favor, toma uma atitude. E ele não entende como alguém pode precisar ou querer tantas demonstrações de afeto e de amor. Tão exigente, tão insaciável. Isso já não é o bastante?

Para ele falta compreensão. Para ela, satisfação. Para ele, um pouco menos de discussão - para ela, o mesmo pouco a mais de comunicação.

Pra ele, um poço meio cheio. Pra ela, um poço meio vazio.

Mas eles sabem que tem um lugar onde silêncio e palavra se anulam, se tornam uníssono, um uníssono que cada uma das duas partes pode interpretar e sentir como quiser - e ela não vai precisar de diálogo, nem ele de compreensão. Aquilo ali por si só é comunicação - comunicação pura e nua.

Cama.

- Come on, baby.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Eutanásia

Inerte.
Não tem força pra ser outra coisa (se é que inércia pode ser considerada um estado de "ser"). A impressão que dá é que a força ficou nos dia dourados, dias em que havia alegria no simples acordar, no viver o dia sem grandes novidades, sem grandes expectativas e, por fim, no dormir. Não havia nada de novo, não havia mais o frio na barriga, mas, pelo menos naqueles dias, dormia-se com e em paz, com sorriso de criança no rosto por acreditar que aquilo bastava e nada mais poderia chegar tão perto da perfeição. Naqueles dias não havia a incerteza, a agitação, a curiosidade. Era só deitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos.

E agora é só isso - a cabeça não sai do travesseiro, não se sabe se por comodidade ou por incapacidade. No fundo é porque não há forças nem coragem para levantar. Porque, no fim das contas, é o profundo e derradeiro suspiro. E, em volta, é a monotonia do mesmo, o faz por fazer e não por prazer. Por dentro, é a raiva de não ser capaz de fazer dominar o desejo emocional de continuar - porque, se a esperança é a última que morre, há que se morrer acreditando, ou pelo menos tentando acreditar, que ainda há mais o que viver. Mas quem fala alto aqui é o desejo racional. Deixa morrer. Melhor que seja brusco, bruto e abrupto. Pra que prolongar, pra que insistir? Só há sofrimento, não há mais vida ali. Já houve, e muita. Tanta vida que não há nada do que se arrepender, apenas do que se alegrar.

E, se durante esse coma, a gente se alimenta com falsas esperanças de que a vida vai voltar, é bom saber, talvez ela volte mesmo. Se nunca se foi por completo, o tanto que restou pode se reavivar. Ressuscitar. Mas quem precisa de mortos-vivos? Frágeis, débeis, carentes, necessitados de cuidados e atenção o tempo todo. Vegetais.

Mas é tão difícil deixar ir se ainda há corações que pulsam, mãos que se buscam, olhos que se emocionam e metades que se completam. Como ignorar essa vida? Uma vida que talvez só precise de um pouco de força pra tornar a andar com os mesmos pés felizes de sempre.

E eu não quero te deixar ir, mas também não quero te perder aos poucos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

No Brasil, política e reality show têm tudo a ver

O cara enterra um machado na mesa do entrevistador, bate em mulher, joga velhinha no chão, lança um disco tosco, tem uma carreira medíocre, arranja briga com Deus e o mundo. O cara só sabe se descontrolar, mas tem aquele estilo bad boy e, dá pra negar?, é bonito. "Boa pinta", como dizem os homens quando não querem assumir que um cara é gato - mesmo que tenham plena ciência disso!

Enfim, de bom o cara só tem o físico. E - voilà! - agora tem um milhão no bolso, numa "vitória" esmagadora sobre uma cantora simpática, que pelo menos tem voz e, no ano passado, estava no topo das paradas com uma música que o Brasil inteiro postou no perfil do Orkut.

Então, é isso: o Dado Dolabella levou seu milhão pra casa e agora quer transformar a grana em música. Isso é o que eu chamo de caridade. Desde quando o cara que já ganhou cachê a nível Globo e nasceu em berço de família de ator precisa dessa grana?

Bom, convenhamos que nenhuma celebridade, ou subcelebridade, precisa mesmo de grana - querer todo mundo quer, óbvio, mas precisar de verdade é outra história. Acho que nem mesmo o Carlinhos, ex-criança de rua e interno da Febem, precisaria tanto de um milhão, depois de ter feito fama na pele do Mendigo. Mas, pelo menos, de todo aquele povo, era quem deveria ganhar, já que alguém tinha que ganhar mesmo.

Mas claro que não! Votaram no bad boy boa pinta.

Será que quem votou no Dado Dolabella são os mesmos que botaram o Sarney no Senado? Que reavivaram um Collor morto-vivo, há vinte anos deposto da Presidência por não ser nada mais que um corrupto? Que ainda dão voto de confiança pro Maluf, que tem podridão até na voz e na cara? Provavelmente sim. São os mesmos.

Eu não tenho quase nada de engajamento político e vai ver sou errada em não ter pretensões de mudar o mundo com algo a mais que meu voto. Mas, mesmo da minha posição alienada, tenho certeza de que o resultado de um reality show, que torna milionário um cara já rico, mas pobre de espírito e de conduta, só pode ser uma analogia fiel à política que se vota e que se faz no Brasil.

Agora, um adendo: por que raios muitas das mesmas pessoas que em janeiro não desgrudam do Big Brother debocham de quem estacionou o controle na Record durante A fazenda? - como eu mesma fiz algumas vezes durante essas longas férias suínas. No fim, não é tudo a mesma coisa? A mesma putaria, palhaçada, lavagem cerebral, inutilidade, emburrecimento, perda de tempo, tudo isso tão típico de reality shows?

Aah, já entendi a grande diferença: A Fazenda não é da Globo e o Britto Júnior não é o Bial. Ah, tá. Agora, sim. Faz sentido.

Brasileiros...

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

...e se...?

Vez ou outra, me vejo às voltas com as possibilidades não-acontecidas do "e se?" - aquele tipo de coisa que poderia ter sido, não foi e hoje não tem mais a mínima chance de ser. Se você nunca se perguntou um "e se", com certeza um dia o seu subconsciente, durante o seu sono, vai tratar de arranjar o magnífico confronto "você vs. a dúvida".

E nenhum "e se" incomoda mais que este que te sorri sarcástico durante a noite. Aquele que você mesmo, assumido pelo seu subconsciente, desenterra em sonho. É totalmente diferente de um "e se" constantemente lançado a você por terceiros, que só se faz tortura pelo simples fato de que, na verdade, você não se importa nem um pouco com o que poderia ter sido.

O "e se" do subconsciente agitado e polvoroso enquanto você, teoricamente, descansa em berço esplêndido, é a dúvida que você nem imaginava ter, arrancada do seu âmago e atirada na sua cara. E se tivesse sido diferente? Como seria sua vida hoje?

Eu, particularmente, gosto da minha exatamente como está. Sem tirar nem por (mas, francamente, eu não reclamaria de uns zeros a mais no saldo bancário). Você pode gostar da sua também. Mas deixe seu subconsciente lançar o confronto da dúvida durante uma única noite e você, provavelmente, vai passar outros tantos dias a pensar... e se?

"E ses" são consequências de escolhas. Arbitrárias ou impostas. Impensadas ou miraboladas. Um extremo ou outro, inconsequentes, no sentido de isentar-se de consequências, é que não são. Taí o "e se...?" a título de prova.

"E ses" gritam na sua cara você não pode abraçar o mundo! Porque se você se pergunta "e se...?", é mais ou menos isso: você quer saber como teria sido, mas também não quer abrir mão do que sua vida agora é - e que não seria se o "e se...?" tivesse sido.

Mas não foi, então pra que remoer? Remoer "e ses" explicita ou inventa "poréns" pra vida que se leva - e que sem o confronto da dúvida parece tão plena e confortável quanto se merece, depois de superar os trancos e barrancos que um dia impediram o "e se" de fato ser.

E que bom assim.


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Beija-flor

Era seu beija-flor. Pequeno, quebrável, machucável. Eu o via pedir proteção com seus pequenos olhos, escuros como os dias que de sempre em sempre incansavelmente se punham à sua frente, tranformando felicidade em uma eterna ladainha que jamais levaria ao intermitente. Felicidade assim seria apenas, e pra sempre, uma porção de picos no topo de vales acidentados com negros abismos entre si. Nunca seria uma planície.

E era seu beija-flor, pequeno, frágil, que de repente ganhava força de águia para suportar com suas asinhas as interpéries que separava um cume do outro. Chegar ao próximo topo, verdejante, cheio de vida, era o lhe que botava força. Mas, de volta aos abismos, o pequeno beija-flor despencava. Para dentro do escuro, do vazio, do intocável. Lá embaixo, falta de chão. Mas a força ressurgia, das cinzas feito fênix, a colocar o pequeno beija-flor de volta ao voo. Nunca chegava ao fim do abismo, embora tantas vezes tenha sentido o frio de penetrar ossos, pele e penas.

Na minha cabeça, a imagem do pequeno beija-flor até hoje muitas vezes perde o foco e, pouco a pouco, lembra a imagem da própria fênix, tamanha sua determinação em persistir. Mas, no fim do dia, é apenas um pequeno beija-flor, com toda a sua beleza a ofuscar sua fragilidade - ou seria vice-versa?

De mim sobre ele
Era o seu beija-flor acordando ali ao seu lado, em meio à sua proteção de uma noite. E se pudesse não o deixaria voar. Deitaria sobre o verde dos topos, faria do seu próprio peito um belo ninho. Mas se não podia ou se não queria, para mim nunca ficou muito claro e também nunca fez muita diferença. Pra mim só havia a dor do voo conturbado, interrompido, tempestuoso.

O fato é que ele, em sã consciência, jamais se permitiria chamar o pequeno beija-flor de seu. No entanto, em são sentimento, ele sempre soube que era mesmo seu e que o ser-para-sempre estava nas suas mãos. Apenas. Porque, em que dependesse do pequeno beija-flor, as mãos dele seriam eternamente ninho - eram ali que repousavam suas asinhas depois do voo entre os picos, tão cansadas que às vezes lembravam as das borboletas recém-desencasuladas.

Mas eram as mesmas mãos que o botavam a voar outra vez, que o soltavam na correnteza, contra a vontade de qualquer um. Como pode, então, ser ninho a mão que abandona e desampara? Seria responsabilidade demais tornar-se porto seguro da frágil ave?

De mim para o beija-flor
Pra onde você queria ir, beija-flor? Se pudesse, voaria longe? Buscaria seu ninho em outra direção, em outro coração? Ou escolheria o mesmo voo tempestuoso de sempre, na esperança de um dia encontrar os campos planos, plenos, verdes, vastos? Te assisto voar, beija-flor, mas não sou gaiola. Seu voo é livre e na sua busca você vai aonde quer. Eu apenas te assisto e te protejo em pensamento.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Como você se vê no futuro?

Essa é a pergunta que especialmente consegue me enrolar a língua em entrevistas de estágio. Ironia ou não, ela quase nunca deixa de ser feita. Só não consigo imaginar como essa perguntinha maldita pode ser decisiva em qualquer processo seletivo. Afinal, com certeza ninguém vai se atrever a responder: "Bom, me vejo desempregado, mal-amado, depressivo, quebrado e à beira do suicídio". Óbvio que qualquer candidato vai responder que se vê um profissional bem sucedido, graças a muito esforço e dedicação, e sempre aberto a novos aprendizados, sempre interessado em evoluir para dar o melhor de si.

Discurso decorado.
E eu odeio discurso decorado em entrevista de estágio. "Meu defeito é ser perfeccionista, mas ao mesmo tempo isso faz com que eu me dedique ao máximo ao trabalho". Rá. A pessoa consegue se perfazer até quando vai falar de um defeito.

Mas, para todos os efeitos, é a perguntinha maldita do como eu me vejo no futuro que me ferra a vida presente. Tem coisas que eu consigo enxergar bem nítidas na minha cabeça - um casamento, um casal de filhos, carro na garagem, alguns cachorros, uma chácara para os fins de semana, almoços em família tipo comercial de margarina.

O problema é que tem uma coisa em especial que eu não consigo ver - e que é o que interessa aos RHs, claro: minha carreira. Eu vejo o dinheiro que dela vem e que me dá o poder de comprar carro, chácara, ração pra cachorro, educação pros filhos. Mas não vejo o que vou estar fazendo em troca desse resultado. Meu medo é que às vezes não vejo nem a sombra dessa resposta.

Jornalista? Talvez. Provável. Afinal eu estou numa faculdade de Jornalismo, não? É, estou, mas quem pode dizer o que vai ser do Jornalismo agora que diploma virou item de decoração numa moldura bonita pendurada na parede? De qualquer forma, eu estudo Jornalismo mais pelo gostar de escrever que pela vontade de mudar o mundo, transformar uma geração inteira, denunciar mazelas, injustiças, corrupções, decepções. A parte teórica da faculdade me entedia (e ainda bem que já acabou) e muito da prática me dá preguiça. Mas eu não vou reclamar de sentar e escrever um texto. Tá certo que eu tenho preferência escancarada pelo escrever livre, leve, literário, não o escrever de notícia. New Journalism. Mas não vou achar o fim do mundo escrever sobre a nova pesquisa que descobriu isso e aquilo - que é, por sinal, rotina aqui do estágio atual.

Eu queria ser escritora, mas não sei do quê. Livro, coluna, crônica, reportagem à la Gay Talese, roteiro de filme ou eternamente blog. Viver de traçar perfil de pessoas, anônimos, personalidades, celebridades. Contar história.

É isso: no futuro, me vejo de meia e moletom em casa, cabelo em coque, café em caneca, John Mayer em player, dedo no teclado e letrinhas na tela, a contar uma história longe da pretensão de mudar o mundo. Apenas contar. Sabe lá pra quem ou pra quê. Só um prazer meu de escrever. E, de quebra, tirar daí uma graninha pra casa, pra chácara, pro carro, pros filhos, pro marido. Pro cavalo, pros cachorros, pro restaurante, pra viagem.

E agora, convenhamos, que acontece se eu responder isso numa entrevista de estágio ou de emprego?

Conheço a história: o bom e velho email de "agradecemos pelo interesse em trabalhar conosco, seu cadastro permanecerá em nosso banco de dados para futuras oportunidades". Isso quando não o silêncio.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Das unhas não-vermelhas, da voz sempre alta e do monólogo em chope

As unhas sempre pintadas em escarlate, nessa noite, estavam em esmalte claro, levemente cor-de-rosa. Sumiam em contraste com o amarelo-ouro do copo de chope trazido à boca de tempos em tempos. E, enquanto não bebia, ela falava. Desde sempre sua voz saía mais alto do que se julgaria conveniente. Era assim na sala de aula, bons tempos de colegial, e notei, com um sorriso no rosto, que assim continuava sendo. Algumas coisas nunca mudam. Mas se antes, há três anos, o alto da voz me incomodava, até quase ferver o sangue, naquela noite me trazia a segurança de um solo firme, sensação que só a certeza de uma amizade nos pode trazer.

Então eu ouvia, em sua voz chamativa, toda a narrativa que eu já conhecia pelas conversas sem-fim via internet. Na brecha do expediente, ou mesmo na hora mais atarefada dele, era sempre o nome dela a piscar na minha tela. O enredo naquela noite eu conhecia de cor: era, basicamente, a história do seu desamor, que simplesmente não podia virar desamor porque continuava amor, e assim continuava nas duas partes, mas o muro de orgulho que se construiu entre elas era demasiado forte para se deixar corromper pela vontade, e necessidade, de estar junto.

E eu, ah, como eu queria ser o corrosivo que levaria o muro abaixo. Queria abrir um olho aqui, uma cabeça lá, mostrar o que era pra ser. Eu, romântica inveterada e irremediável, nunca pude ver uma história de amor que não acontece por questões de ego. Até porque sempre acreditei que o maior inimigo do amor é o próprio ego e eu, tantas vezes, dizimei o meu a migalhas por amor ou mesmo qualquer paixonite.

Naquela noite, só ela falava. Eu escutava, com o chope amolecendo minhas moléculas, mas não minha atenção. Aquela ali na minha frente, sabe Deus como, virou amiga do peito, primeira a vir à minha cabeça na urgência de uma novidade, uma fofoca, uma dor, um desabafo, um telefonema de "cheguei", um chope com carpaccio, um qualquer coisa. Sabe Deus como, mesmo.

Não sei precisar quando a concorrência acirrada de vestibular (que, na verdade, nunca foi explícita, mas tampouco era segredo) atravessou a linha divisória e, pouco a pouco, derreteu-se perante a amizade. Na verdade, acho que sei, e posso afirmar com quase certeza que foi quando cada uma passou em seu respectivo curso, sua respectiva faculdade, e foi viver sua respectiva vida a uma distância de 300 quilômetros - mas por licença poética, e pra manter mascarada a tal da concorrência, digo que não sei.

Mas naquela noite não tinha concorrência, não tinha vestibular, não tinha faculdade - tinha amizade e a história dela. Queria eu ter uma luz, amarelo-ouro como aquele terceiro chope, para jogar em cima daquele imbróglio dela. - Te juro que se a minha relação gozasse de plenas felicidade e perfeição, eu te dava tanto quanto delas fosse necessário pra resolver a sua vida, mas eu sou só humana e minha relação também tropeça.

Não, mas naquela noite não convinham os tropeços da minha relação, porque a dela já tinha tropeçado tanto que, naquele momento, estava a rolar morro eterno abaixo, uma gigantesca e maciça bola a engolir mais e mais neve, graveto, grama, lágrima, pedra, merda.

Não, não, naquela noite nem passava pela minha cabeça a rotina ferrosa em que caíra o meu relacionamento. Passava pela minha cabeça só a falta de luz pra ajudar com o dela. Mas era hora de me conformar: não era eu quem ia fazer a luz sobre essa história. Isso cabia a ele e a ela. Eu, como amiga de amizade que superou a concorrência do vestibular (ou será que teria daí nascido?), só podia escutar.

E, no fim das contas, era isso que ela, com suas unhas hoje não-vermelhas, queria de mim, apesar de seus constantes e-agora-o-que-que-eu-faço lançados à mesa. Mas na verdade essa era só uma pergunta retórica, que, junto com o chope, servia de combustível para o monólogo-desabafo da voz sempre alta. E para a nossa amizade.