quinta-feira, 30 de julho de 2009

Como você se vê no futuro?

Essa é a pergunta que especialmente consegue me enrolar a língua em entrevistas de estágio. Ironia ou não, ela quase nunca deixa de ser feita. Só não consigo imaginar como essa perguntinha maldita pode ser decisiva em qualquer processo seletivo. Afinal, com certeza ninguém vai se atrever a responder: "Bom, me vejo desempregado, mal-amado, depressivo, quebrado e à beira do suicídio". Óbvio que qualquer candidato vai responder que se vê um profissional bem sucedido, graças a muito esforço e dedicação, e sempre aberto a novos aprendizados, sempre interessado em evoluir para dar o melhor de si.

Discurso decorado.
E eu odeio discurso decorado em entrevista de estágio. "Meu defeito é ser perfeccionista, mas ao mesmo tempo isso faz com que eu me dedique ao máximo ao trabalho". Rá. A pessoa consegue se perfazer até quando vai falar de um defeito.

Mas, para todos os efeitos, é a perguntinha maldita do como eu me vejo no futuro que me ferra a vida presente. Tem coisas que eu consigo enxergar bem nítidas na minha cabeça - um casamento, um casal de filhos, carro na garagem, alguns cachorros, uma chácara para os fins de semana, almoços em família tipo comercial de margarina.

O problema é que tem uma coisa em especial que eu não consigo ver - e que é o que interessa aos RHs, claro: minha carreira. Eu vejo o dinheiro que dela vem e que me dá o poder de comprar carro, chácara, ração pra cachorro, educação pros filhos. Mas não vejo o que vou estar fazendo em troca desse resultado. Meu medo é que às vezes não vejo nem a sombra dessa resposta.

Jornalista? Talvez. Provável. Afinal eu estou numa faculdade de Jornalismo, não? É, estou, mas quem pode dizer o que vai ser do Jornalismo agora que diploma virou item de decoração numa moldura bonita pendurada na parede? De qualquer forma, eu estudo Jornalismo mais pelo gostar de escrever que pela vontade de mudar o mundo, transformar uma geração inteira, denunciar mazelas, injustiças, corrupções, decepções. A parte teórica da faculdade me entedia (e ainda bem que já acabou) e muito da prática me dá preguiça. Mas eu não vou reclamar de sentar e escrever um texto. Tá certo que eu tenho preferência escancarada pelo escrever livre, leve, literário, não o escrever de notícia. New Journalism. Mas não vou achar o fim do mundo escrever sobre a nova pesquisa que descobriu isso e aquilo - que é, por sinal, rotina aqui do estágio atual.

Eu queria ser escritora, mas não sei do quê. Livro, coluna, crônica, reportagem à la Gay Talese, roteiro de filme ou eternamente blog. Viver de traçar perfil de pessoas, anônimos, personalidades, celebridades. Contar história.

É isso: no futuro, me vejo de meia e moletom em casa, cabelo em coque, café em caneca, John Mayer em player, dedo no teclado e letrinhas na tela, a contar uma história longe da pretensão de mudar o mundo. Apenas contar. Sabe lá pra quem ou pra quê. Só um prazer meu de escrever. E, de quebra, tirar daí uma graninha pra casa, pra chácara, pro carro, pros filhos, pro marido. Pro cavalo, pros cachorros, pro restaurante, pra viagem.

E agora, convenhamos, que acontece se eu responder isso numa entrevista de estágio ou de emprego?

Conheço a história: o bom e velho email de "agradecemos pelo interesse em trabalhar conosco, seu cadastro permanecerá em nosso banco de dados para futuras oportunidades". Isso quando não o silêncio.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Das unhas não-vermelhas, da voz sempre alta e do monólogo em chope

As unhas sempre pintadas em escarlate, nessa noite, estavam em esmalte claro, levemente cor-de-rosa. Sumiam em contraste com o amarelo-ouro do copo de chope trazido à boca de tempos em tempos. E, enquanto não bebia, ela falava. Desde sempre sua voz saía mais alto do que se julgaria conveniente. Era assim na sala de aula, bons tempos de colegial, e notei, com um sorriso no rosto, que assim continuava sendo. Algumas coisas nunca mudam. Mas se antes, há três anos, o alto da voz me incomodava, até quase ferver o sangue, naquela noite me trazia a segurança de um solo firme, sensação que só a certeza de uma amizade nos pode trazer.

Então eu ouvia, em sua voz chamativa, toda a narrativa que eu já conhecia pelas conversas sem-fim via internet. Na brecha do expediente, ou mesmo na hora mais atarefada dele, era sempre o nome dela a piscar na minha tela. O enredo naquela noite eu conhecia de cor: era, basicamente, a história do seu desamor, que simplesmente não podia virar desamor porque continuava amor, e assim continuava nas duas partes, mas o muro de orgulho que se construiu entre elas era demasiado forte para se deixar corromper pela vontade, e necessidade, de estar junto.

E eu, ah, como eu queria ser o corrosivo que levaria o muro abaixo. Queria abrir um olho aqui, uma cabeça lá, mostrar o que era pra ser. Eu, romântica inveterada e irremediável, nunca pude ver uma história de amor que não acontece por questões de ego. Até porque sempre acreditei que o maior inimigo do amor é o próprio ego e eu, tantas vezes, dizimei o meu a migalhas por amor ou mesmo qualquer paixonite.

Naquela noite, só ela falava. Eu escutava, com o chope amolecendo minhas moléculas, mas não minha atenção. Aquela ali na minha frente, sabe Deus como, virou amiga do peito, primeira a vir à minha cabeça na urgência de uma novidade, uma fofoca, uma dor, um desabafo, um telefonema de "cheguei", um chope com carpaccio, um qualquer coisa. Sabe Deus como, mesmo.

Não sei precisar quando a concorrência acirrada de vestibular (que, na verdade, nunca foi explícita, mas tampouco era segredo) atravessou a linha divisória e, pouco a pouco, derreteu-se perante a amizade. Na verdade, acho que sei, e posso afirmar com quase certeza que foi quando cada uma passou em seu respectivo curso, sua respectiva faculdade, e foi viver sua respectiva vida a uma distância de 300 quilômetros - mas por licença poética, e pra manter mascarada a tal da concorrência, digo que não sei.

Mas naquela noite não tinha concorrência, não tinha vestibular, não tinha faculdade - tinha amizade e a história dela. Queria eu ter uma luz, amarelo-ouro como aquele terceiro chope, para jogar em cima daquele imbróglio dela. - Te juro que se a minha relação gozasse de plenas felicidade e perfeição, eu te dava tanto quanto delas fosse necessário pra resolver a sua vida, mas eu sou só humana e minha relação também tropeça.

Não, mas naquela noite não convinham os tropeços da minha relação, porque a dela já tinha tropeçado tanto que, naquele momento, estava a rolar morro eterno abaixo, uma gigantesca e maciça bola a engolir mais e mais neve, graveto, grama, lágrima, pedra, merda.

Não, não, naquela noite nem passava pela minha cabeça a rotina ferrosa em que caíra o meu relacionamento. Passava pela minha cabeça só a falta de luz pra ajudar com o dela. Mas era hora de me conformar: não era eu quem ia fazer a luz sobre essa história. Isso cabia a ele e a ela. Eu, como amiga de amizade que superou a concorrência do vestibular (ou será que teria daí nascido?), só podia escutar.

E, no fim das contas, era isso que ela, com suas unhas hoje não-vermelhas, queria de mim, apesar de seus constantes e-agora-o-que-que-eu-faço lançados à mesa. Mas na verdade essa era só uma pergunta retórica, que, junto com o chope, servia de combustível para o monólogo-desabafo da voz sempre alta. E para a nossa amizade.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Das paixões e despaixões até o amor...

... é um longo e sofrível caminho. Quem já se embrenhou por esses caminhos sabe. Ouso dizer que, da teia superramificada de sentimentos humanos, esta é a trilha mais espinhosa. Quem se arrisca a segui-la, deve ir preparado com suas cascas mais grossas - mas sempre removíveis, porque a graça, no fim do túnel, é - figurativamente - despir-se (e por que não literal?).

Eu mesma tive um caminho tortuoso. Na adolescência, me gabava de ser apolínea ao extremo - ou seja, racional. Balela. Era o ser mais sedento por paixonites platônicas jamais visto. Tive muitas. Mas considero apenas poucas delas. Só as que me acrescentaram alguma coisa além de espinhos. Aquelas que ultrapassaram o superficial da minha casca pretensamente grossa, mas verdadeiramente derretível.

De todas elas, então, guardo duas como recordação que vale a pena. Independente de suas intensidades, jamais as confundi com amor. Sempre soube, apesar de nunca ter amado, que aquilo que eu sentia não era amor. Simplesmente porque não era uma sensação sublime, como de andar em nuvens. Talvez porque, nessas duas ocasiões, não fui de fato correspondida por um segundo sequer.

Então pergunto-me: como podem elas, então, terem me trazido algo mais que espinhos? Fácil. Prepararam terreno pro que havia de vir: o amor em sua mais pura e cristalina forma. Sempre faço essa analogia mental: minhas paixonites antigas foram pedras no caminho; as paixões verdadeiras foram ponte e o amor, esse que eu sinto hoje, é minha terra prometida. A maça no topo da copa, no galho mais alto. A inspiração, calmaria com cheiro de paz, em meio à tormenta do vazio.

A rosa tímida, porém fervorosa, escondida em meio aos espinhos cruéis.

domingo, 12 de julho de 2009

Então eu vou assistir às peripécias do mundo e da vida em silêncio?

Os relatos da infância se perderam junto com os pequenos diários perfumados que minha mãe achou serem úteis dentro da caixa de doações à caridade - quando na verdade só poderiam ser úteis a quem os escreveu: eu mesma que, num lapso de bom senso, julguei que diários antigos são como o agasalho velho que a gente doa no inverno porque não vai mais usar.

Sabe Deus onde foram parar aquelas páginas preenchidas com caneta colorida, em caligrafia de criança caprichada que mal sabe desenhar as letras, mas ainda assim faz questão de rebuscar com perninhas enroladas e pinguinhos enfeitados. Sabe Deus quem foi que leu minhas impressões de infância. Uns quatro diários se perderam, quando o lugar deles não era pra ser outro além da minha gaveta trancada. Queria eu poder ler hoje o que passava dentro da minha cabeça de sete ou dez anos.

Depois desses quatro diários, veio a adolescência - e a efervescência de (primeiras) histórias a serem guardadas. Persistiu a mania de criança de começar um diário sem terminar o outro, por simples vontade de trocar, não importa quantas páginas em branco permanecessem sedentas por uma caligrafia agora já melhor resolvida - e que o psicólogo do colégio, no segundo ano, disse ser de alguém com baixo autoestima.

Mas nessa fase troquei os diários perfumados de cadeados vagabundos por agendas ou cadernos. Nas agendas, relatos breves dividiam espaço com letras de música, recadinhos de amigas, fotos, coisas bregas dos 15 anos. Nos cadernos, sim, eu ia mais a fundo nas histórias que tinha pra contar. Em um deles, adotei o estilo crônica, oque se encaixa no meu escrever como luva. De todos eles, sei onde estão alguns - não sei bem se algum se perdeu, provavelmente sim. Nos anos finais da minha adolescência, quando o mundo já se afastava cada vez mais da noção de papel e caneta, eu entrei pra blogosfera. Tive um, dois, três blogs (um deles, inclusive, neste mesmo endereço), mas considero a existência de um apenas. Que pereceu por preguiça da autora, pobre dele.

Mas isso não tá certo.
Olhemos em nossa volta: num dia, o presidente do Senado se envolve em escândalos do tipo bola-de-neve; no outro, um incomparável e fenomenal ícone louco-gênio da música morre... ao mesmo tempo, as Honduras e seu golpe de Estado, a Coreia do Norte e seus mísseis, a USP e suas greves, o Jornalismo e seu não-diploma... e eu, aqui, braços cruzados, preguiça demais para manter um blog.

Não, isso não me parece certo se escolhi e estudar para escrever! Não me parece certo deixar que outros tantos relatos, agora dos vinte em diante, se percam por aí. Não só relato de coisas da minha vida, porque isso não interessa a ninguém (interessaria se eu fosse a celebridade que finjo ser enquanto canto no chuveiro). Enfim, só ideias que resolverem fazer uma visita a minha cabeça.

Escrevo-as aqui, pois, em um jeito hospitaleiro de uma boa anfitriã a recebê-las, para que voltem sempre.