Essa é a pergunta que especialmente consegue me enrolar a língua em entrevistas de estágio. Ironia ou não, ela quase nunca deixa de ser feita. Só não consigo imaginar como essa perguntinha maldita pode ser decisiva em qualquer processo seletivo. Afinal, com certeza ninguém vai se atrever a responder: "Bom, me vejo desempregado, mal-amado, depressivo, quebrado e à beira do suicídio". Óbvio que qualquer candidato vai responder que se vê um profissional bem sucedido, graças a muito esforço e dedicação, e sempre aberto a novos aprendizados, sempre interessado em evoluir para dar o melhor de si.
Discurso decorado.
E eu odeio discurso decorado em entrevista de estágio. "Meu defeito é ser perfeccionista, mas ao mesmo tempo isso faz com que eu me dedique ao máximo ao trabalho". Rá. A pessoa consegue se perfazer até quando vai falar de um defeito.
Mas, para todos os efeitos, é a perguntinha maldita do como eu me vejo no futuro que me ferra a vida presente. Tem coisas que eu consigo enxergar bem nítidas na minha cabeça - um casamento, um casal de filhos, carro na garagem, alguns cachorros, uma chácara para os fins de semana, almoços em família tipo comercial de margarina.
O problema é que tem uma coisa em especial que eu não consigo ver - e que é o que interessa aos RHs, claro: minha carreira. Eu vejo o dinheiro que dela vem e que me dá o poder de comprar carro, chácara, ração pra cachorro, educação pros filhos. Mas não vejo o que vou estar fazendo em troca desse resultado. Meu medo é que às vezes não vejo nem a sombra dessa resposta.
Jornalista? Talvez. Provável. Afinal eu estou numa faculdade de Jornalismo, não? É, estou, mas quem pode dizer o que vai ser do Jornalismo agora que diploma virou item de decoração numa moldura bonita pendurada na parede? De qualquer forma, eu estudo Jornalismo mais pelo gostar de escrever que pela vontade de mudar o mundo, transformar uma geração inteira, denunciar mazelas, injustiças, corrupções, decepções. A parte teórica da faculdade me entedia (e ainda bem que já acabou) e muito da prática me dá preguiça. Mas eu não vou reclamar de sentar e escrever um texto. Tá certo que eu tenho preferência escancarada pelo escrever livre, leve, literário, não o escrever de notícia. New Journalism. Mas não vou achar o fim do mundo escrever sobre a nova pesquisa que descobriu isso e aquilo - que é, por sinal, rotina aqui do estágio atual.
Eu queria ser escritora, mas não sei do quê. Livro, coluna, crônica, reportagem à la Gay Talese, roteiro de filme ou eternamente blog. Viver de traçar perfil de pessoas, anônimos, personalidades, celebridades. Contar história.
É isso: no futuro, me vejo de meia e moletom em casa, cabelo em coque, café em caneca, John Mayer em player, dedo no teclado e letrinhas na tela, a contar uma história longe da pretensão de mudar o mundo. Apenas contar. Sabe lá pra quem ou pra quê. Só um prazer meu de escrever. E, de quebra, tirar daí uma graninha pra casa, pra chácara, pro carro, pros filhos, pro marido. Pro cavalo, pros cachorros, pro restaurante, pra viagem.
E agora, convenhamos, que acontece se eu responder isso numa entrevista de estágio ou de emprego?
Conheço a história: o bom e velho email de "agradecemos pelo interesse em trabalhar conosco, seu cadastro permanecerá em nosso banco de dados para futuras oportunidades". Isso quando não o silêncio.
é isso aí
Há 11 anos