As unhas sempre pintadas em escarlate, nessa noite, estavam em esmalte claro, levemente cor-de-rosa. Sumiam em contraste com o amarelo-ouro do copo de chope trazido à boca de tempos em tempos. E, enquanto não bebia, ela falava. Desde sempre sua voz saía mais alto do que se julgaria conveniente. Era assim na sala de aula, bons tempos de colegial, e notei, com um sorriso no rosto, que assim continuava sendo. Algumas coisas nunca mudam. Mas se antes, há três anos, o alto da voz me incomodava, até quase ferver o sangue, naquela noite me trazia a segurança de um solo firme, sensação que só a certeza de uma amizade nos pode trazer.
Então eu ouvia, em sua voz chamativa, toda a narrativa que eu já conhecia pelas conversas sem-fim via internet. Na brecha do expediente, ou mesmo na hora mais atarefada dele, era sempre o nome dela a piscar na minha tela. O enredo naquela noite eu conhecia de cor: era, basicamente, a história do seu desamor, que simplesmente não podia virar desamor porque continuava amor, e assim continuava nas duas partes, mas o muro de orgulho que se construiu entre elas era demasiado forte para se deixar corromper pela vontade, e necessidade, de estar junto.
E eu, ah, como eu queria ser o corrosivo que levaria o muro abaixo. Queria abrir um olho aqui, uma cabeça lá, mostrar o que era pra ser. Eu, romântica inveterada e irremediável, nunca pude ver uma história de amor que não acontece por questões de ego. Até porque sempre acreditei que o maior inimigo do amor é o próprio ego e eu, tantas vezes, dizimei o meu a migalhas por amor ou mesmo qualquer paixonite.
Naquela noite, só ela falava. Eu escutava, com o chope amolecendo minhas moléculas, mas não minha atenção. Aquela ali na minha frente, sabe Deus como, virou amiga do peito, primeira a vir à minha cabeça na urgência de uma novidade, uma fofoca, uma dor, um desabafo, um telefonema de "cheguei", um chope com carpaccio, um qualquer coisa. Sabe Deus como, mesmo.
Não sei precisar quando a concorrência acirrada de vestibular (que, na verdade, nunca foi explícita, mas tampouco era segredo) atravessou a linha divisória e, pouco a pouco, derreteu-se perante a amizade. Na verdade, acho que sei, e posso afirmar com quase certeza que foi quando cada uma passou em seu respectivo curso, sua respectiva faculdade, e foi viver sua respectiva vida a uma distância de 300 quilômetros - mas por licença poética, e pra manter mascarada a tal da concorrência, digo que não sei.
Mas naquela noite não tinha concorrência, não tinha vestibular, não tinha faculdade - tinha amizade e a história dela. Queria eu ter uma luz, amarelo-ouro como aquele terceiro chope, para jogar em cima daquele imbróglio dela. - Te juro que se a minha relação gozasse de plenas felicidade e perfeição, eu te dava tanto quanto delas fosse necessário pra resolver a sua vida, mas eu sou só humana e minha relação também tropeça.
Não, mas naquela noite não convinham os tropeços da minha relação, porque a dela já tinha tropeçado tanto que, naquele momento, estava a rolar morro eterno abaixo, uma gigantesca e maciça bola a engolir mais e mais neve, graveto, grama, lágrima, pedra, merda.
Não, não, naquela noite nem passava pela minha cabeça a rotina ferrosa em que caíra o meu relacionamento. Passava pela minha cabeça só a falta de luz pra ajudar com o dela. Mas era hora de me conformar: não era eu quem ia fazer a luz sobre essa história. Isso cabia a ele e a ela. Eu, como amiga de amizade que superou a concorrência do vestibular (ou será que teria daí nascido?), só podia escutar.
E, no fim das contas, era isso que ela, com suas unhas hoje não-vermelhas, queria de mim, apesar de seus constantes e-agora-o-que-que-eu-faço lançados à mesa. Mas na verdade essa era só uma pergunta retórica, que, junto com o chope, servia de combustível para o monólogo-desabafo da voz sempre alta. E para a nossa amizade.
é isso aí
Há 11 anos
Aiiii crisssssssssssssss!!! Tô chorandoooooooooooo!!!=/
ResponderExcluirQdo eu li o título ja encheu meu olho de lágrima rs..Só podia ser a minha unha a minha voz alta e o nosso chop rs...Tb não sei explicar de onde surgiu tudo isso entre nós, mas enfim, que bom que surgiu!
E sim, foi você a única responsável por tirar de mim toda angustia que eu senti esses meses.
Ah se não fosse seu "jeito jornalista de querer resolver os problemas do mundo"! TE AMO