domingo, 12 de julho de 2009

Então eu vou assistir às peripécias do mundo e da vida em silêncio?

Os relatos da infância se perderam junto com os pequenos diários perfumados que minha mãe achou serem úteis dentro da caixa de doações à caridade - quando na verdade só poderiam ser úteis a quem os escreveu: eu mesma que, num lapso de bom senso, julguei que diários antigos são como o agasalho velho que a gente doa no inverno porque não vai mais usar.

Sabe Deus onde foram parar aquelas páginas preenchidas com caneta colorida, em caligrafia de criança caprichada que mal sabe desenhar as letras, mas ainda assim faz questão de rebuscar com perninhas enroladas e pinguinhos enfeitados. Sabe Deus quem foi que leu minhas impressões de infância. Uns quatro diários se perderam, quando o lugar deles não era pra ser outro além da minha gaveta trancada. Queria eu poder ler hoje o que passava dentro da minha cabeça de sete ou dez anos.

Depois desses quatro diários, veio a adolescência - e a efervescência de (primeiras) histórias a serem guardadas. Persistiu a mania de criança de começar um diário sem terminar o outro, por simples vontade de trocar, não importa quantas páginas em branco permanecessem sedentas por uma caligrafia agora já melhor resolvida - e que o psicólogo do colégio, no segundo ano, disse ser de alguém com baixo autoestima.

Mas nessa fase troquei os diários perfumados de cadeados vagabundos por agendas ou cadernos. Nas agendas, relatos breves dividiam espaço com letras de música, recadinhos de amigas, fotos, coisas bregas dos 15 anos. Nos cadernos, sim, eu ia mais a fundo nas histórias que tinha pra contar. Em um deles, adotei o estilo crônica, oque se encaixa no meu escrever como luva. De todos eles, sei onde estão alguns - não sei bem se algum se perdeu, provavelmente sim. Nos anos finais da minha adolescência, quando o mundo já se afastava cada vez mais da noção de papel e caneta, eu entrei pra blogosfera. Tive um, dois, três blogs (um deles, inclusive, neste mesmo endereço), mas considero a existência de um apenas. Que pereceu por preguiça da autora, pobre dele.

Mas isso não tá certo.
Olhemos em nossa volta: num dia, o presidente do Senado se envolve em escândalos do tipo bola-de-neve; no outro, um incomparável e fenomenal ícone louco-gênio da música morre... ao mesmo tempo, as Honduras e seu golpe de Estado, a Coreia do Norte e seus mísseis, a USP e suas greves, o Jornalismo e seu não-diploma... e eu, aqui, braços cruzados, preguiça demais para manter um blog.

Não, isso não me parece certo se escolhi e estudar para escrever! Não me parece certo deixar que outros tantos relatos, agora dos vinte em diante, se percam por aí. Não só relato de coisas da minha vida, porque isso não interessa a ninguém (interessaria se eu fosse a celebridade que finjo ser enquanto canto no chuveiro). Enfim, só ideias que resolverem fazer uma visita a minha cabeça.

Escrevo-as aqui, pois, em um jeito hospitaleiro de uma boa anfitriã a recebê-las, para que voltem sempre.

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