Inerte.
Não tem força pra ser outra coisa (se é que inércia pode ser considerada um estado de "ser"). A impressão que dá é que a força ficou nos dia dourados, dias em que havia alegria no simples acordar, no viver o dia sem grandes novidades, sem grandes expectativas e, por fim, no dormir. Não havia nada de novo, não havia mais o frio na barriga, mas, pelo menos naqueles dias, dormia-se com e em paz, com sorriso de criança no rosto por acreditar que aquilo bastava e nada mais poderia chegar tão perto da perfeição. Naqueles dias não havia a incerteza, a agitação, a curiosidade. Era só deitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos.
E agora é só isso - a cabeça não sai do travesseiro, não se sabe se por comodidade ou por incapacidade. No fundo é porque não há forças nem coragem para levantar. Porque, no fim das contas, é o profundo e derradeiro suspiro. E, em volta, é a monotonia do mesmo, o faz por fazer e não por prazer. Por dentro, é a raiva de não ser capaz de fazer dominar o desejo emocional de continuar - porque, se a esperança é a última que morre, há que se morrer acreditando, ou pelo menos tentando acreditar, que ainda há mais o que viver. Mas quem fala alto aqui é o desejo racional. Deixa morrer. Melhor que seja brusco, bruto e abrupto. Pra que prolongar, pra que insistir? Só há sofrimento, não há mais vida ali. Já houve, e muita. Tanta vida que não há nada do que se arrepender, apenas do que se alegrar.
E, se durante esse coma, a gente se alimenta com falsas esperanças de que a vida vai voltar, é bom saber, talvez ela volte mesmo. Se nunca se foi por completo, o tanto que restou pode se reavivar. Ressuscitar. Mas quem precisa de mortos-vivos? Frágeis, débeis, carentes, necessitados de cuidados e atenção o tempo todo. Vegetais.
Mas é tão difícil deixar ir se ainda há corações que pulsam, mãos que se buscam, olhos que se emocionam e metades que se completam. Como ignorar essa vida? Uma vida que talvez só precise de um pouco de força pra tornar a andar com os mesmos pés felizes de sempre.
E eu não quero te deixar ir, mas também não quero te perder aos poucos.
é isso aí
Há 11 anos
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